Acórdãos do tribunal de justiçaTJSC5052548-63.2026.8.24.0000
DIREITO PENAL E PROCESSUAL PENAL. REVISÃO CRIMINAL. RECEPTAÇÃO QUALIFICADA E ADULTERAÇÃO DE SINAL IDENTIFICADOR DE VEÍCULO AUTOMOTOR. PRETENSÃO DE APLICAÇÃO DO PRINCÍPIO DA ESPECIALIDADE. ALEGADO BIS IN IDEM. LEI N. 14.562/2023. INAPLICABILIDADE. CONDUTAS AUTÔNOMAS. AQUISIÇÃO E DESMANCHE DE VEÍCULOS E PEÇAS DE ORIGEM CRIMINOSA. SUPRESSÃO E ADULTERAÇÃO DE SINAIS IDENTIFICADORES. OBJETOS E MOMENTOS CONSUMATIVOS DIVERSOS. CONCURSO MATERIAL. DUPLA PUNIÇÃO NÃO CONFIGURADA. PEDIDO REVISIONAL INDEFERIDO.
I. CASO EM EXAME
Revisão criminal ajuizada contra condenação à pena de 7 anos de reclusão, em regime inicial fechado, e 22 dias-multa, pela prática dos crimes previstos nos artigos 180, § 1º, e 311, caput, ambos do Código Penal. O requerente sustenta que a Lei n. 14.562/2023 promoveu alteração substancial no artigo 311 do Código Penal, passando a criminalizar especificamente a conduta de quem, em atividade comercial, lida com veículos ou peças adulteradas. Pretende, com fundamento no princípio da especialidade e na vedação ao bis in idem, o afastamento da condenação pelo crime de receptação qualificada.
II. QUESTÃO EM DISCUSSÃO
Há 2 questões em discussão:
(i) saber se a alteração promovida pela Lei n. 14.562/2023 no artigo 311 do Código Penal autoriza, pelo princípio da especialidade, a absorção do crime de receptação qualificada pelo delito de adulteração de sinal identificador de veículo automotor;
(ii) verificar se as condutas reconhecidas na condenação possuem autonomia suficiente para justificar a incidência cumulativa dos artigos 180, § 1º, e 311, caput, do Código Penal, sem configuração de bis in idem.
III. RAZÕES DE DECIDIR
1. A aplicação do princípio da especialidade entre os crimes de receptação e adulteração de sinal identificador pressupõe contexto único e ausência de autonomia entre as condutas, hipótese não verificada no caso.
2. O conjunto probatório reconhecido na condenação demonstra condutas autônomas, consistentes, de um lado, na aquisição, recebimento, desmanche e comercialização de veículos e peças de procedência criminosa e, de outro, na supressão ou adulteração de sinais identificadores, com o propósito de dissimular a origem ilícita dos bens.
3. As condutas recaíram sobre veículos e componentes diversos e foram praticadas em circunstâncias distintas, inclusive com afetação de bens jurídicos diversos, o que afasta a absorção de um delito pelo outro.
4. A alteração promovida pela Lei n. 14.562/2023 não afasta a incidência cumulativa dos delitos quando demonstrada a autonomia das condutas, sendo cabível o concurso material e inexistente a alegada dupla punição pelo mesmo fato.
IV. DISPOSITIVO E TESE
Pedido revisional indeferido.
Tese de julgamento:
"A aplicação do princípio da especialidade entre os crimes de receptação qualificada e adulteração de sinal identificador de veículo automotor pressupõe contexto único e ausência de autonomia entre as condutas."
"A aquisição, o recebimento, o desmanche ou a comercialização de veículos e peças de origem criminosa e a posterior supressão ou adulteração de seus sinais identificadores configuram condutas autônomas quando recaem sobre objetos ou momentos distintos."
"Demonstrada a autonomia das condutas, a incidência cumulativa dos artigos 180, § 1º, e 311, caput, do Código Penal não configura bis in idem, sendo cabível o concurso material."
Dispositivos relevantes citados: artigos 180, § 1º, e 311, caput, do Código Penal; Lei n. 14.562/2023.
Jurisprudência relevante citada: TJSC, Apelação Criminal n. 5092071-81.2024.8.24.0023; TJSC, Revisão Criminal n. 5011673-09.2025.8.24.0000; STJ, AgRg no AREsp n. 2.600.503/ES; STJ, AgRg no REsp n. 2.187.549/SP; STJ, AgRg no AREsp n. 3.033.381/BA; STJ, AgRg no AREsp n. 2.976.542/CE; STJ, AgRg no AREsp n. 3.114.272/RN.